quarta-feira, 21 de maio de 2014

Frio e Calor




“Quem nasce no sul não sente frio” As palavras chegavam abafadas dentro de seus ouvidos cobertos por duas toucas de lã. 


Enquanto a mãe continuava a reclamar do seu frio desmedido, os irmãos corriam e brincavam na grama queimada da geada da madrugada. Eles não usavam luva e nem se importavam em andar descalçados pisando em poças gélidas, enquanto ela mal podia mover os dedos das mãos por conta das luvas grossas. Ela nunca gostou do frio. Sonhava com os desertos com oásis em que sua pele ia sentir o sol lamber com vontade e saciar todo seu amor pelo calor. Ao invés disso, nasceu no estado mais gelado do seu país cercada de gente que não tinha sensores ao frio, o que a deixava ao mesmo tempo irritada e com inveja. E como sonho é sonho, e o sonho é mais querido ainda quando se tem um motivo particular pra isso, ela se mudou de casa assim que pode.
Queria estar ali, no nordeste do seu país, do lado da linha do equador, onde as chuvas caiam em gotas grossas e quentes, onde poderia exibir as pernas brancas e ter enfim a sensação de sentir o seu corpo suar. Não era uma pessoa de gelo. Era uma moça que gostava do ar quase parado, da areia branca e seca das praias, da vida morena que o sol trazia pra quem sabia receber seu calor. Nunca mais usou agasalhos e nunca mais teve os dedos das mãos de cor púrpura e doloridos pelo castigo do frio.
Conheceu um rapaz certa tarde sentado nas cadeiras de um quiosque qualquer. Conversaram, beberam e conversaram novamente. E quando ela achou que já não tinha mais assunto a tratar, mais conversa fluiu e fluiu mais ainda. E eles se encontravam nas praias dessa vida, dia após dia, noite após noite. Até que um dia ele marcou um encontro em um shopping qualquer.
Ela chegou na hora e no lugar que ele pediu, eles deram as mãos e começaram a caminhar. O calor, ah o calor dentro do seu peito, num afago que era nada além do que a melhor coisa pra ela. Ele caminhou a sua frente e disse que as coisas andavam ótimas, que nada era como antes e que tinha um pedido a fazer. Puxou ela pelo braço para dentro do elevador, e lá embaixo, no primeiro andar, quando a porta se abriu ela viu seu mundo caindo: Embaixo de uma faixa de “Casa comigo?”  a pista de patinação no gelo estava cercada de funcionários batendo palmas e rodeados pela névoa fria que subia do gelo artificial. Ela ficou muda. Ele a puxou para a pista e um rapaz lhe ofereceu os patins.
Gelo. Raiva. Frio. Amor. Como pode tanta coisa rodar a sua mente em tão pouco tempo né?
E ela ficou em pé, olhando a faixa, olhando os olhos dele cheios de amor, olhando o rapaz lá na pista segurando uma caixinha preta que devia ser uma aliança. Lembrando de suas dores, sua mãe, seus irmãos do gelo...
...
Hoje ela sorriu com a memória daquele dia fatídico. Olhou pra ele e deu um beijo carinhoso na sua bochecha quente. Escutou a lareira crepitando a madeira fria, e se enrolou no cobertor. A lua de mel em Campos do Jordão estava ótima. Eles iam acordar cedo e subir o morro juntos no outro dia. Tudo indicava que ia nevar. E ela não perderia a neve do lado dele, por nada desse mundo.