“Quem nasce no sul não sente frio” As palavras chegavam abafadas dentro de seus ouvidos cobertos por duas toucas de lã.
Enquanto a mãe continuava a reclamar do seu frio desmedido,
os irmãos corriam e brincavam na grama queimada da geada da madrugada. Eles não
usavam luva e nem se importavam em andar descalçados pisando em poças gélidas,
enquanto ela mal podia mover os dedos das mãos por conta das luvas grossas. Ela
nunca gostou do frio. Sonhava com os desertos com oásis em que sua pele ia
sentir o sol lamber com vontade e saciar todo seu amor pelo calor. Ao invés
disso, nasceu no estado mais gelado do seu país cercada de gente que não tinha
sensores ao frio, o que a deixava ao mesmo tempo irritada e com inveja. E como
sonho é sonho, e o sonho é mais querido ainda quando se tem um motivo particular
pra isso, ela se mudou de casa assim que pode.
Queria estar ali, no nordeste do seu país, do lado da linha
do equador, onde as chuvas caiam em gotas grossas e quentes, onde poderia
exibir as pernas brancas e ter enfim a sensação de sentir o seu corpo suar. Não
era uma pessoa de gelo. Era uma moça que gostava do ar quase parado, da areia
branca e seca das praias, da vida morena que o sol trazia pra quem sabia
receber seu calor. Nunca mais usou agasalhos e nunca mais teve os dedos das
mãos de cor púrpura e doloridos pelo castigo do frio.
Conheceu um rapaz certa tarde sentado nas cadeiras de um
quiosque qualquer. Conversaram, beberam e conversaram novamente. E quando ela
achou que já não tinha mais assunto a tratar, mais conversa fluiu e fluiu mais
ainda. E eles se encontravam nas praias dessa vida, dia após dia, noite após
noite. Até que um dia ele marcou um encontro em um shopping qualquer.
Ela chegou na hora e no lugar que ele pediu, eles deram as
mãos e começaram a caminhar. O calor, ah o calor dentro do seu peito, num afago
que era nada além do que a melhor coisa pra ela. Ele caminhou a sua frente e
disse que as coisas andavam ótimas, que nada era como antes e que tinha um
pedido a fazer. Puxou ela pelo braço para dentro do elevador, e lá embaixo, no
primeiro andar, quando a porta se abriu ela viu seu mundo caindo: Embaixo de
uma faixa de “Casa comigo?” a pista de
patinação no gelo estava cercada de funcionários batendo palmas e rodeados pela
névoa fria que subia do gelo artificial. Ela ficou muda. Ele a puxou para a
pista e um rapaz lhe ofereceu os patins.
Gelo. Raiva. Frio. Amor. Como pode tanta coisa rodar a sua
mente em tão pouco tempo né?
E ela ficou em pé, olhando a faixa, olhando os olhos dele
cheios de amor, olhando o rapaz lá na pista segurando uma caixinha preta que
devia ser uma aliança. Lembrando de suas dores, sua mãe, seus irmãos do gelo...
...
Hoje ela sorriu com a memória daquele dia fatídico. Olhou
pra ele e deu um beijo carinhoso na sua bochecha quente. Escutou a lareira
crepitando a madeira fria, e se enrolou no cobertor. A lua de mel em Campos do
Jordão estava ótima. Eles iam acordar cedo e subir o morro juntos no outro dia.
Tudo indicava que ia nevar. E ela não perderia a neve do lado dele, por nada
desse mundo.
