É incrível, que na vida, a nossa maior surpresa, não é surpresa nenhuma : a morte
O cortejo andava vagarosamente pela avenida principal. No
trajeto de cinco quarteirões, crianças, jovens e velhos caminhavam cabisbaixos
trocando palavras de consolo entre si no caminho ao cemitério.
Jazia dentro do caixão, a matriarca da família, magra e de
estrutura frágil , já nem sequer lembrava a mulher que colheu café, algodão e
que conseguiu criar quatro filhos,
superando a morte de dois maridos.
Cercada de filhos, netos e bisnetos, ela
agora estava coberta com um fino tule bege e rodeada de pequenas margaridas que
iam até os limites do caixão e espalhavam pelo ar um doce aroma de flores, que
lembrava vida. Um triste contraste com a imagem da senhora morta, com a pele
fina e toda marcada de rugas que estava magra e com os ossos marcando os cantos
do corpo. A imagem de um corpo que já estava sem vida desde muito antes de
morrer.
Os seis carregadores, três dos quais eram os filhos que
ainda restaram, cambaleavam o caixão e
adentraram o cemitério, seguidos das pessoas chorosas e com velas que teimavam
em ficar acesas na brisa cortante da tarde de junho.
A morte não devia ser surpresa pra quem sofreu e viveu tanto
tempo. Mas, será a morte o verdadeiro prêmio depois de se viver uma vida de
expiação e trabalho quase sem fim?
Cruzando por entre os túmulos antigos como é na entrada de
qualquer cemitério, o cortejo se espremeu para caminhar pelas vielas
acidentadas em que números de “perpétua” aumentavam e diminuíam sem critério
nenhum. Os túmulos de tempos passados, todos discretos, grandes retângulos de
concreto com imagens de santos e anjos de olhar sereno, datavam desse antes da
fundação da cidade. Mas era engraçado que, como se fosse uma evolução, os
mesmos túmulos se apresentavam de formas diferentes conforme a data do
sepultamento de seus habitantes, havia correntes cercando alguns deles, já
outros, ostentando um mármore negro com suas grades escuras e puxadores
dourados. Ali haviam também as pequenas capelas em que famílias inteiras se
encontravam pra ficar em silêncio , aguardando a visitas de seus herdeiros nem
sempre interessados em perder seu tempo com a família falecida. O vento gelado do inverno terminava de
depenar as pequenas arvores que insistiam em dar um toque de vida ao lugar.
Entre uma e outra curva as pessoas paravam para admirar as esculturas e fotos
inexpressivas dos que ali estavam enterrados. Como podia um cemitério ser tão
belo e tão cheio de tristeza ao mesmo tempo?
A certa altura, foi preciso passar com cuidado ao cruzar uma
ruazinha de onde escorria uma enxurrada de parafina derretida, nela, logo
acima, havia o tumulo de um garoto, há muito tempo falecido vitima de
tuberculose, que ficou conhecido como milagreiro. Ali, dezenas de embalagens de
iogurte, brinquedos, cartas de pedido e agradecimento, coroas de flores,
pequenos presentes infantis e todo tipo de fotos cercavam de baixo a cima um
pequeno tumulo coberto de minúsculos azulejos azul piscina. Na foto, o garoto
rindo, de pé, se encostando em uma cadeira, vestido com roupas de época e
segurando um chocalho. Ao redor, quase que uma centena de velas derretia e se
tornavam uma coisa só ao ar em uma fumaça escura e ao chão em parafina que
serpenteava pelos vãos do chão de concreto, deslizando até que ficasse dura
demais.
Logo a frente, a capela do cemitério toda feita de vidro
fumê, destoava do ambiente em que estava, rodeada de túmulos maçônicos com seus
símbolos e fotos ovais de um lado, e do outro o famoso cruzeiro, onde qualquer
vela acendida valia para qualquer alma e toda prece seria dividida igualmente
entre os que dessa precisassem.
Enfim, caminhando reto até o muro que limitava o cemitério,
eles encontraram o paredão onde as famílias que não tinhas condições enterravam
seus entes queridos, as gavetas.
Mas, se em vida, não tiveram chance de ter seu próprio teto
pra acolher os seus e viver em paz, em morte então com toda certeza teriam
direito de um canto para descansar enfim se reunirem? Não.
Os lugares eram poucos e a prefeitura não se dava ao
trabalho de aumentar a quantia de espaço ou reservar uma área maior. Enfim um
cemitério iria aumentar porque querendo ou não as pessoas iriam continuar a
morrer, mas o dinheiro devia ir para as maternidades, ou para o necrotério?
O cortejo se antecipou a caminhar para o cemitério, porque
duas das irmãs ainda vivas da senhora falecida passaram mal e uma delas chegou
a desmaiar. Os filhos aflitos que carregavam o caixão se aproximavam ainda
cambaleando, guiando o cortejo para o paredão cedido pela administração
pública. Qual não foi a surpresa, quando, por conta da antecipação o Sr.
Coveiro ainda estava liberando o espaço para a falecida enfim entrar e
descansar seus ossos fracos.
Por um instante, um momento, quase um pequeno segundo se
ouviu um gemido agudo de mulher, quase que um lamento. A esposa do filho
falecido, da agora falecida sogra. A viúva que ficou com uma filha única, órfã
de pai há cinco anos trás por conta de um acidente. A mulher que estava vendo o
Sr. Coveiro fazer o seu trabalho, indiferente ao cortejo que já estava a menos
de três metros dele.
Assim, junto com uma rajada de vento úmido e frio , o choro
da menina órfã se ouviu e os filhos que carregavam o caixão foram, um a um,
caindo e si e percebendo que, a gaveta que o coveiro estava esvaziando era onde
estava seu irmão. Eles então pararam todos, segurando nos braços já cansados a
mãe falecida, enquanto o restante da família e amigos tapavam as bocas pra
infeliz coincidência fúnebre.
O caixão que eles haviam carregado há alguns anos já estava
no chão, e em cima dele a pequena coroa de flores cedida pela empresa do
falecido, com seu nome escrito em uma faixa com letras cintilantes e uma foto
de terno, resquício de um documento oficial qualquer. Na frente do caixão, que
fora lacrado por conta da gravidade do acidente, o rosto do ocupante estava
visível, agora não passava de ossos com uma pele negra, seca com os cabelos
desgrenhados, os lábios recuados e os dentes a mostra.
Todo o cortejo parou, e as pessoas se alinharam aguardando o
que iria acontecer.
Desconhecendo a situação, o coveiro continuou seu trabalho.
Passou uma pequena vassoura dentro da gaveta, juntou os pedaços de concreto da
tampa quebrada e os guardou dentro do seu carrinho de mão.
De todos daquele cortejo, apenas dois ou três não estiveram
ali há cinco anos atrás enterrando o irmão falecido. As dores, as lembranças
cinzas e o frio de junho pairavam sobre eles, com seus casacos velhos e seus
rostos cansados. Já não bastava a vida ser tão cruel, ainda gostava de rir e
deliciar com o sofrimento que acumulava. Podia uma ferida velha que cutucada,
doer mais que uma ferida que acabava de ser aberta?
E a família aguardou, com a mãe morta suspensa e o caixão do
irmão ao chão, para que até em morte eles não pudessem ter o descanso ao mesmo,
mas sendo trocados um pelo outro.
Como tantas vezes a mãe abriu mão de comer para dar aos
filhos, como tantas vezes não havia água para todos beberem, como tantas vezes
eles revezaram o sono no único colchão que tinham.
Colocada a mãe na gaveta, os choros se misturavam entre os
que eram por conta do sepultamento e os que eram por conta da lembrança do
sepultamento antigo. Já não havia ninguém sereno entre eles.
O coveiro enfim colocou os tijolos e selou com concreto a
entrada. Ela enfim estava descansando. E tinha um lugar só dela. Mesmo que esse
lugar tenha sido cedido pelo filho.
A família nunca para de se relacionar.
Os irmãos pegaram o caixão puído, de madeira barata, se
viraram e tomaram a frente do cortejo.
O coveiro foi atualizado do que acontecia e ficou sem reação,
apenas encostou em sua pá e observou o andamento.
O frio de junho não dava trégua, e os corações do cortejo
ainda não se acalmaram. Os irmãos iriam levar os ossos de seu falecido para o
necrotério. Sempre unidos. Sempre família.

Nenhum comentário:
Postar um comentário