sábado, 12 de abril de 2014

O enterro

É incrível, que na vida, a nossa maior surpresa, não é surpresa nenhuma : a morte



O cortejo andava vagarosamente pela avenida principal. No trajeto de cinco quarteirões, crianças, jovens e velhos caminhavam cabisbaixos trocando palavras de consolo entre si no caminho ao cemitério.
Jazia dentro do caixão, a matriarca da família, magra e de estrutura frágil , já nem sequer lembrava a mulher que colheu café, algodão e que conseguiu criar quatro  filhos, superando a morte de dois maridos.
 Cercada de filhos, netos e bisnetos, ela agora estava coberta com um fino tule bege e rodeada de pequenas margaridas que iam até os limites do caixão e espalhavam pelo ar um doce aroma de flores, que lembrava vida. Um triste contraste com a imagem da senhora morta, com a pele fina e toda marcada de rugas que estava magra e com os ossos marcando os cantos do corpo. A imagem de um corpo que já estava sem vida desde muito antes de morrer.

Os seis carregadores, três dos quais eram os filhos que ainda restaram,  cambaleavam o caixão e adentraram o cemitério, seguidos das pessoas chorosas e com velas que teimavam em ficar acesas na brisa cortante da tarde de junho.
A morte não devia ser surpresa pra quem sofreu e viveu tanto tempo. Mas, será a morte o verdadeiro prêmio depois de se viver uma vida de expiação e trabalho quase sem fim?
Cruzando por entre os túmulos antigos como é na entrada de qualquer cemitério, o cortejo se espremeu para caminhar pelas vielas acidentadas em que números de “perpétua” aumentavam e diminuíam sem critério nenhum. Os túmulos de tempos passados, todos discretos, grandes retângulos de concreto com imagens de santos e anjos de olhar sereno, datavam desse antes da fundação da cidade. Mas era engraçado que, como se fosse uma evolução, os mesmos túmulos se apresentavam de formas diferentes conforme a data do sepultamento de seus habitantes, havia correntes cercando alguns deles, já outros, ostentando um mármore negro com suas grades escuras e puxadores dourados. Ali haviam também as pequenas capelas em que famílias inteiras se encontravam pra ficar em silêncio , aguardando a visitas de seus herdeiros nem sempre interessados em perder seu tempo com a família falecida.  O vento gelado do inverno terminava de depenar as pequenas arvores que insistiam em dar um toque de vida ao lugar. Entre uma e outra curva as pessoas paravam para admirar as esculturas e fotos inexpressivas dos que ali estavam enterrados. Como podia um cemitério ser tão belo e tão cheio de tristeza ao mesmo tempo?

A certa altura, foi preciso passar com cuidado ao cruzar uma ruazinha de onde escorria uma enxurrada de parafina derretida, nela, logo acima, havia o tumulo de um garoto, há muito tempo falecido vitima de tuberculose, que ficou conhecido como milagreiro. Ali, dezenas de embalagens de iogurte, brinquedos, cartas de pedido e agradecimento, coroas de flores, pequenos presentes infantis e todo tipo de fotos cercavam de baixo a cima um pequeno tumulo coberto de minúsculos azulejos azul piscina. Na foto, o garoto rindo, de pé, se encostando em uma cadeira, vestido com roupas de época e segurando um chocalho. Ao redor, quase que uma centena de velas derretia e se tornavam uma coisa só ao ar em uma fumaça escura e ao chão em parafina que serpenteava pelos vãos do chão de concreto, deslizando até que ficasse dura demais.

Logo a frente, a capela do cemitério toda feita de vidro fumê, destoava do ambiente em que estava, rodeada de túmulos maçônicos com seus símbolos e fotos ovais de um lado, e do outro o famoso cruzeiro, onde qualquer vela acendida valia para qualquer alma e toda prece seria dividida igualmente entre os que dessa precisassem.

Enfim, caminhando reto até o muro que limitava o cemitério, eles encontraram o paredão onde as famílias que não tinhas condições enterravam seus entes queridos, as gavetas.

Mas, se em vida, não tiveram chance de ter seu próprio teto pra acolher os seus e viver em paz, em morte então com toda certeza teriam direito de um canto para descansar enfim se reunirem? Não.

Os lugares eram poucos e a prefeitura não se dava ao trabalho de aumentar a quantia de espaço ou reservar uma área maior. Enfim um cemitério iria aumentar porque querendo ou não as pessoas iriam continuar a morrer, mas o dinheiro devia ir para as maternidades, ou para o necrotério?
O cortejo se antecipou a caminhar para o cemitério, porque duas das irmãs ainda vivas da senhora falecida passaram mal e uma delas chegou a desmaiar. Os filhos aflitos que carregavam o caixão se aproximavam ainda cambaleando, guiando o cortejo para o paredão cedido pela administração pública. Qual não foi a surpresa, quando, por conta da antecipação o Sr. Coveiro ainda estava liberando o espaço para a falecida enfim entrar e descansar seus ossos fracos.

Por um instante, um momento, quase um pequeno segundo se ouviu um gemido agudo de mulher, quase que um lamento. A esposa do filho falecido, da agora falecida sogra. A viúva que ficou com uma filha única, órfã de pai há cinco anos trás por conta de um acidente. A mulher que estava vendo o Sr. Coveiro fazer o seu trabalho, indiferente ao cortejo que já estava a menos de três metros dele.
Assim, junto com uma rajada de vento úmido e frio , o choro da menina órfã se ouviu e os filhos que carregavam o caixão foram, um a um, caindo e si e percebendo que, a gaveta que o coveiro estava esvaziando era onde estava seu irmão. Eles então pararam todos, segurando nos braços já cansados a mãe falecida, enquanto o restante da família e amigos tapavam as bocas pra infeliz coincidência fúnebre.

O caixão que eles haviam carregado há alguns anos já estava no chão, e em cima dele a pequena coroa de flores cedida pela empresa do falecido, com seu nome escrito em uma faixa com letras cintilantes e uma foto de terno, resquício de um documento oficial qualquer. Na frente do caixão, que fora lacrado por conta da gravidade do acidente, o rosto do ocupante estava visível, agora não passava de ossos com uma pele negra, seca com os cabelos desgrenhados, os lábios recuados e os dentes a mostra.
Todo o cortejo parou, e as pessoas se alinharam aguardando o que iria acontecer.

Desconhecendo a situação, o coveiro continuou seu trabalho. Passou uma pequena vassoura dentro da gaveta, juntou os pedaços de concreto da tampa quebrada e os guardou dentro do seu carrinho de mão.
De todos daquele cortejo, apenas dois ou três não estiveram ali há cinco anos atrás enterrando o irmão falecido. As dores, as lembranças cinzas e o frio de junho pairavam sobre eles, com seus casacos velhos e seus rostos cansados. Já não bastava a vida ser tão cruel, ainda gostava de rir e deliciar com o sofrimento que acumulava. Podia uma ferida velha que cutucada, doer mais que uma ferida que acabava de ser aberta?

E a família aguardou, com a mãe morta suspensa e o caixão do irmão ao chão, para que até em morte eles não pudessem ter o descanso ao mesmo, mas sendo trocados um pelo outro.
Como tantas vezes a mãe abriu mão de comer para dar aos filhos, como tantas vezes não havia água para todos beberem, como tantas vezes eles revezaram o sono no único colchão que tinham.
Colocada a mãe na gaveta, os choros se misturavam entre os que eram por conta do sepultamento e os que eram por conta da lembrança do sepultamento antigo. Já não havia ninguém sereno entre eles.
O coveiro enfim colocou os tijolos e selou com concreto a entrada. Ela enfim estava descansando. E tinha um lugar só dela. Mesmo que esse lugar tenha sido cedido pelo filho.
A família nunca para de se relacionar.
Os irmãos pegaram o caixão puído, de madeira barata, se viraram  e tomaram a frente do cortejo.
O coveiro foi atualizado do que acontecia e ficou sem reação, apenas encostou em sua pá e observou o andamento.

O frio de junho não dava trégua, e os corações do cortejo ainda não se acalmaram. Os irmãos iriam levar os ossos de seu falecido para o necrotério. Sempre unidos. Sempre família. 

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