quarta-feira, 13 de março de 2013

O barulho dos gatos


O barulho dos gatos




Eu me lembro do dia em que escolhi esse apartamento para alugar. Era o único que estava livre, que tinha uma varanda. 

Sendo ele no terceiro andar, na minha cabeça, a varanda ia ser um lugar onde eu ia poder ler um ou outro livro, sentar no fim de tarde pra ver o sol, e me refugiar da vida, como se morar sozinho já não bastasse. 
Por fim, o espaço hoje, só serve pra comportar alguns cabos retorcidos que eu insisto em chamar de varal, acumular poeira trazida pelo vento e servir de playground pros gatos que insistem que a minha varanda é mais atrativa que as outras quatro do meu bloco.

Por vezes eu ouvia gritos deles em suas noites acordados e quando me levantava pra enxotá-los dali, não havia nada. Como fantasmas cruéis, eles sumiam ao meu menor movimento, me fazendo ir para a varanda de cueca, me obrigando a contemplar noites claras e de vento parado. As vezes eu achava graça. Noutras, era tomado de ódio e revolta quando caia em mim a minha impotência, enquanto os via descendo pelo muro, com uma agilidade fora do comum e ainda olhando para trás como que me dizendo : “não foi dessa vez meu querido”. 

É incrível como nunca se enganam. Nunca aparecem por lá quando estou silenciosamente remoendo a solidão que optei. Não tombam o lixo, não deixam rastro. Não sujam a varanda. Às vezes são como lembranças ruins, sabe? Aparecendo na calada da noite, me acordando, me fazendo lembrar que a vida não é perfeita o quanto eu desenho em minha mente. Me fazendo desacreditar no conto que eu mesmo conto para mim. 

Hoje eu não me chateio com o barulho dos gatos. Fiz planos para a varanda, e me demiti deles de forma preguiçosa. O barulho sinaliza minha desistência, minha falta de coragem. Os gatos são as pessoas que aproveitam as chances que você não pega. Deitando e rolando em uma varanda que até então você sempre achou que fosse sua, mas descobre de forma cruel, que a propriedade das coisas não está no achismo, mas sim na ação.

Nos últimos tempos recomecei a ler. Recomecei a escrever. Até voltei a ensaiar minhas musicas em tons barítonos. E não ouço mais o barulho dos gatos a noite. 

Parece um acordo silencioso. Um trato, que começou com uma chantagem, é verdade. 

Uma noite passada enquanto estava lá dentro envolvido em livro qualquer, ouvi gemidos na varanda. 
Saí devagar, sem esperança de encontrar a origem do som. Lá fora, o vento que anunciava o outono bateu em meu rosto, e então eu a vi.

Uma gata deitada no canto da varanda, me olhando com olhos de piedade.

 Ela não estava se desculpando, estava me perdoando.
 Não sei por que.

Nunca saberei.

Ao seu redor, estavam dois pequenos filhotes recém-nascidos, natimortos. Corpos magros, pelo escasso e olhos fechados. Era como se eu me visse ali. Deitado, desistindo de tudo, e fechando os olhos para o mundo.

Após alguns minutos, entre contrações e gemidos, com a minha ajuda o terceiro filhote nasceu. Branco como leite, e vivo. A gata cuidou dele, envolta nos panos que eu havia trazido, e ainda me olhando com olhos de perdão. Que coisa. Me lambendo, e deitando a cabeça devagar, como uma velha senhora cansada.
Hoje eu chamo ele de outono. E deixo a varanda entreaberta pra que ele possa estar em casa quando chego com meu amor, ou carregado de trabalho.

E ele vem até mim, e nós conversamos uma conversa silenciosa como a noite em que ele nasceu. Silenciosa como a morte da sua mãe naquela mesma noite. Uma gata sem nome, que visitava minha varanda de tempos em tempos, pra me fazer acordar para a vida.

Hoje, o barulho dos gatos não passa de um ronronar, como uma lembrança boa, de um tempo ruim, que acabei superando. 


Eu e Outono, conversando e seguindo em frente.