sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lúcia 1- chuva




Se fosse verdade  que correr na chuva é ótimo, ninguém ficaria doente no dia seguinte. Não haveria lama e  nenhuma sujeira.Eu  não sentiria os pés gelados e  molhados dentro de meias que fazem  um barulho chato enquanto ando, agora que a chuva terminou.
Se fosse verdade,  eu não estaria morrendo de frio, com os braços arrepiados. Mas esse é o problema da vida. As coisas se vendem. Eu sempre soube que correr na chuva tinha um lado  bom, mas nunca vi o lado ruim.


Meu nome é Lúcia.E eu vou contar algumas histórias.



É quase tarde.Quase noite.Esse horário em que as pessoas começam a sair correndo dos empregos pra chegar em casa rápido pra não fazerem nada. Esse horário.
Eu vi  o tempo escurecer durante o dia e não pensei em nada.Porque? Porque não somos acostumados a ver os sinais da vida, a ver as dicas do destino. Agora,com o cabelo molhado e essa coceira prestes a virar uma dor de garganta, eu penso que o dia me avisou o dia todo que ia chover.Agora tudo faz sentido. E essa mania de dizer que "agora faz sentido". Fez sentido o tempo todo, eu que não percebi.

Eu ainda tenho quatro quadras até chegar em casa.Ficar descalça  não é uma opção. Vou me virar com os pés ensopados até lá.A roupa colado no corpo  já começa roubar o calor. A chuva já é só uma garoa agora.

Existe um  cruzamento entre duas avenidas, o vai e vem é quase nauseante.Eu paro e espero o verde para pedestres, que vai levar uma eternidade.Um garoto de sinal, para do meu lado.Ainda  tem  na mão os três limões que balança  no ar pra ganhar umas moedas.

-Como foi o fim de semana?

Esqueci de avisar que  hoje é segunda.Esqueci de  avisar que tenho centenas de coisas pra fazer.Esqueci de avisar que esse garoto  me vê quase todo dia, mas nunca falou comigo.Esqueci de avisar que fiquei irritada o dia inteiro, e só quero chegar em casa e tomar um banho quente.

-Foi ótimo.

Ele é um garoto de rua.Eu não vou falar que a festa de sábado foi um caos.Que tudo que podia acontecer em quatros horas de uma noite, aconteceu em dobro. Não vou falar que eu bebi todas as bebidas coloridas que me apareceram na frente, e que não lembro de quinze porcento do que fiz.

-Que legal.Eu não fiz nada esse  fim de semana.Não deu

Eu olhei pra cara dele,sua bermuda  manchada e sua camiseta doada davam um ar de tristeza.Mas ainda queria saber pra onde ele iria.

Os carros, passam.Voam. Mas as pessoas não percebem que estão se arrastando.Se aglomerando como moscas ao  redor de açúcar, se confundindo entre outros iguais.Deixando de ser si mesmos.

-Hum..Porque não está com os limões, lá na frente dos carros?

-Eu canso de mexer os braços.

Acho que cansei de mexer os braços.

Quem eu engano? Mexi os braços o fim de semana todo, pra um monte de gente diferente.O guri  só quer uma moedas.Eu queria atenção. 

Eu moro sozinha. A cada gota de chuva que caia em  cima de mim, pensava em como ia ser um saco lavar essas roupas todas. 

O sinal abriu, eu andei mais  duas quadras e virei na terceira. Não tenho nada a perder agora. Fiquei descalça. Andei um pouco até uma praça ali perto e sentei em um banco ainda úmido.

Ninguem é bom em definir prioridades.Afinal o que são prioridades? O que é mais importante,  em que momento da vida? 

Nessa hora eu só quis sentar e ficar ali, vendo o desenho das pedras formando curvas bobas  em uma praça  que ninguem ia. Eu ia fazer o mesmo em casa de qualquer jeito. Estaria só do mesmo jeito. 

Agora eu só quero ser eu mesma.Estar comigo mesma. 

Eu vou morrer em alguns dias.Alguns meses.Alguns anos. Niguem me deu uma data, mas todos querem que eu tome cuidado.Acho que esse ódio da chuva, é de algo mais. 

Ódio de uma sensação que talvez seja a última vez que  eu sinta. Ódio de um  garoto  de  rua, que tranquilo,pode  abrir mão de  jogar seus limões pro ar,  pra tentar ganhar mais dinheiro.Eu não sei se vou ter limões amanhã.Não sei se  vou acordar. 


Eu  tirei a peruca molhada da cabeça e deixei a brisa fria e a garoa que insiste em  cair, gelarem minha pele.