sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A idade e a bondade



Dentro da sala vazia do velório o caixão de madeira barata era quase um monumento. Rodeada de pequenas margaridas,  com as  mãos sobre o peito, dedos cruzados e entrelaçados com um crucifixo, ela era quase uma obra de arte.Algumas velas queimavam ao lado, próximas a um cartaz com o seu nome e um retrato sem expressão, em preto e branco. Seu rosto, suas mãos e todo o resto do  seu corpo, cobertos de rugas. O tempo lhe foi amigo. Era uma velha falecida, que morreu sozinha.




Uma senhora com a mesma idade entra na sala, olha pra pessoa no caixão e fica ao lado, sem reação nenhuma.Alguns minutos mais tarde, uma outra chega, uma gorda senhora com seu  chapéu e fica do  outro lado do caixão.Elas não chegam a se  olhar.
Passam alguns minutos e uma outra senhora, magra e com olheiras, rosto sofrido, chega  e se coloca do  lado  da primeira.

As quatro com a mesma idade, conhecedoras do mundo, por obrigação.

A que chegou por último pergunta:
-São parentes dela?
Diante da negação das duas, ela começa:

-Eu a conheci muito menina. Ela nasceu rica, linda como essas manhãs de verão. Mas com todos, ela sempre agiu como uma manhã cinza, dessas  de inverno sabem?

As duas balançaram a cabeça.

-Seu pai , era patrão do meu.Ela abusava do seu poder,  e na sua maldade  infantil,me fazia como escrava dos seus desejos.Eu era a boneca  tonta que ela  nunca teria.Eu sempre reclamava pro meu pai, mas , em  tempos difíceis, ele me mandava esquecer o sofrimento.Ela tinha a péssima mania de usar os empregados, faze-los de  gato e sapato. Eu tive a minha infância destruída por essa mulher. Hoje eu vim até aqui, pra ter certeza que morrerei em paz.Sem a imagem do mal em minha memória.

As outras duas se entreolharam.

A senhora que chegou primeiro arranha a garganta.Olha pra outras duas e começa dizer:

-Ela foi minha vizinha, durante muito tempo. Toda a riqueza da família se foi  com  a morte do pai e os gastos mal calculados dos  irmãos.Ela era tão pobre  quanto eu. Na época,minhas filhas,ainda pequenas viviam brincando na rua de terra  em que morávamos.A vizinhança sempre a detestou.
Ela pausa e arranha a garganta novamente.

-Os animais da rua sumiam ou apareciam mortos envenenados por algo  que  ninguém sabia. As bolas que caiam no seu quintam eram furadas.As crianças tinham medo.

Ela olha pra outras duas e abaixa a cabeça.

A única que ainda não tinha falado nada , começa:
-Ela casou com meu irmão.

As outras duas fazem cara de espanto.

-Sim. Anos de casamento, nenhum  filho e uma vida quase desgraçada. Maldita o maltratava, fazia de gato e sapato. Não gostava da nossa família,dizia que a gente era do  "sítio". Chegou a bater na minha mãe. Foram pra longe um tempo atrás porque essa maldita o convenceu. Depois que ele morreu em um  acidente, ela voltou e ficou com a casa. Morou sozinha  até não aguentar mais.Não tinha  ninguém por ela, porque nunca foi nada  pra ninguém

As três estavam leves. Em pé em frente a um corpo gelado que não passava de uma encarnação  de más lembranças.Se abriram e acharam ali, um motivo pra se convencer que sempre estiveram certas.Que a velha morta em sua frente  nunca,em fase nenhuma  da vida,  passou de uma megera.

De repente uma moça de uns vinte  anos entra na sala, trazia de mãos dadas uma garota de seus oito  anos e a leva até a beira do  caixão.A menina coloca a mão no rosto da senhora deitada e faz o sinal  da cruz.Todos estão em silêncio. Ela olha com os olhos marejados pra todas ao redor e tenta um sorriso, mas não consegue.

A maior a leva até a sala de fora e volta pra conversar com as outras, de braços cruzados.

-Ela era uma boa senhora. Minha irmã  a chamava de "vozinha". Nós somos órfãs,moramos com um tio, vizinho dela. Ela chamava minha irmã uma vez por semana pra ajudar a fazer um bolo e quase todo dia  se sentava com ela na frente da casa pra contar alguma história da vida, ou só pra pentear seu cabelo.
Mudamos pra cá há uns seis meses mais ou menos,  mas nunca vi minha irmã se apegar tanto a alguém. Ela sempre  gostou dos desenhos que minha irmã levava...quando acharam o corpo, ontem a tarde, descobriram que eles estavam todos colados na parede do quarto...minha irmã está muito triste.

Ela sai da sala e vai abraçar a garotinha do lado de fora.

As três velhas se olham.

Quem poderá julgar alguém? Em que momento  da vida  você passou por essa pessoa? Talvez não tenha sido uma boa hora,  talvez nunca tenha sido.

As três se viram e saem pra fora do  velório, caladas,com um peso  em suas costas.

Tinham que sair, viver o que lhes restava. Não sabiam quantas pessoas as odiavam, nem quantas iriam chorar amanhã ou depois em seus caixões.

Sabiam que iam tentar fazer tudo da melhor forma, antes que fosse tarde  demais.

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